A REFORMA DO ENSINO MÉDIO E SEUS DESDOBRAMENTOS SOBRE O PROCESSO FORMATIVO PRECONIZADO PELO CURRÍCULO INTEGRADO

  • Adriana Toso Kemp Instituto Federal Farroupilha
  • Marcos José Andrighetto UFSM

Resumo

Este trabalho discute a Reforma do Ensino Médio no Brasil, à luz do conceito de formação, cuja base epistemológica remonta à Paideia grega e à Bildung originária do pensamento iluminista alemão. Trata-se de pesquisa teórico-conceitual com o objetivo de contribuir para a compreensão dos desdobramentos dessa Reforma no processo educacional das novas gerações. Pensar a temática da formação humana demanda reconhecer que o processo formativo não se restringe à preparação profissional, embora esta seja importante, mas à vida em todos os seus aspectos. A perspectiva de formação aqui defendida alinha-se, portanto, com a concepção de currículo integrado, que representa um esforço constante de análise crítica rigorosa cujo objetivo é a formação integral de sujeitos preparados para viver e trabalhar no contexto contemporâneo. Isso demanda a formação de sujeitos que, para além de sua capacitação técnica, sejam dotados de uma racionalidade alargada e virtudes éticas produzidas intersubjetivamente com vistas ao desenvolvimento de uma cidadania planetária. À luz do conceito clássico de formação, pode-se observar que o currículo proposto para o ensino médio brasileiro a partir da Reforma do Ensino Médio (REM) não só implica sua redução ao aspecto instrumentalizador, como também uma precarização dessa instrumentalização. A REM não só reduz essa etapa da formação ao aspecto instrumental, mas reduz a instrumentalização a um currículo mínimo direcionado aos testes padronizados em âmbito nacional e internacional, focado nos interesses do capital. Ao cursar um itinerário formativo, o estudante de ensino médio ficará alheio a todas as demais áreas de conhecimento. Inviabiliza-se, desse modo, o acesso desses sujeitos ao legado da tradição sócio-histórica, cultural, científica e tecnológica da humanidade. Também são comprometidas a capacitação para a leitura crítica do mundo e a potencialização da habilidade de leitura e interpretação, capacidades indispensáveis à formação de sujeitos e não à mera instrumentalização para sua inserção no mercado de trabalho. Formação humana para um mundo humano não pode prescindir da técnica, do aparato científico e tecnológico, mas não pode se reduzir a ser transmissão de modos de fazer, sejam eles manuais e/ou intelectuais. Promover a desarticulação entre as áreas de conhecimento, como ocorre com a REM, não é apenas excluir um conjunto de disciplinas em favor de outro. Excluir ou desmerecer determinadas áreas na escola é uma estratégia de esvaziamento do sentido crítico da formação. A concepção de educação que perpassa a REM no Brasil está muito mais atrelada à visão de que o ensino é uma prática técnica instrumental do que um processo de formação de subjetividades. Entretanto, a educação nunca deixa de ser subjetivadora. Ela sempre está produzindo subjetividades. O que ocorre é que se trata, no contexto da REM, da produção de subjetividades reduzidas aos interesses do mercado e não subjetividades alargadas, com capacidade e embasamento teórico-científico que constitui o instrumental necessário para tomar as próprias decisões e agir no contexto social, para além de meramente repetir ideias e operar certos equipamentos técnicos no trabalho.

Publicado
2019-07-25
Como Citar
KEMP, Adriana Toso; ANDRIGHETTO, Marcos José. A REFORMA DO ENSINO MÉDIO E SEUS DESDOBRAMENTOS SOBRE O PROCESSO FORMATIVO PRECONIZADO PELO CURRÍCULO INTEGRADO. II Encontro de Debates sobre Trabalho, Educação e Currículo Integrado, [S.l.], v. 1, n. 1, jul. 2019. Disponível em: <https://publicacoeseventos.unijui.edu.br/index.php/enteci/article/view/11625>. Acesso em: 21 set. 2019.