ABORDAGENS CTS E O HIV-AIDS EM LIVROS DIDÁTICOS DE CIÊNCIAS: DIFERENTES OLHARES PARA O DESENVOLVIMENTO CURRICULAR DE TEMÁTICAS RELEVANTES

  • Rosemar Ayres dos Santos UFFS
  • Guilherme Schwan UFFS
  • Erica do Espirito Santo Hermel UFFS
Palavras-chave: Currículo. Ciência-Tecnologia-Sociedade. Recurso didático.

Resumo

Livros didáticos (LD) foram utilizados em diversos momentos da história brasileira como instrumentos de reprodução conceitual no ensino de Ciências, fornecendo o conhecimento científico como um produto pronto, acabado, inerte ao contexto social. Assim, procuramos investigar temas específicos contidos em LDs, como HIV-AIDS, inserido como um tema transversal. Nesse contexto, entendendo o LD como parte do currículo muito presente em sala de aula, buscamos discutir de forma crítico-reflexiva a respeito de como se apresenta a respectiva temática nos LDs e sua possível discussão por parte dos professores. O número de portadores do vírus HIV aumentou com o passar dos anos e, também, o avanço por parte da Ciência-Tecnologia (CT) no desenvolvimento de mecanismos de controle da doença, entre eles o desenvolvimento de novos medicamentos antirretrovirais. Desse modo, objetivamos com o trabalho analisar as implicações acerca da CT imbricadas no LD de Ciências e de que forma são apresentadas a professores e, posteriormente, a estudantes, na busca de uma maior problematização e posicionamento crítico-reflexivo no ensino de Ciências diante da AIDS. Esse trabalho é de cunho qualitativo, utilizando-se a Análise Textual Discursiva. Na definição e delimitação do corpus de análise, buscamos LDs de Ciências do 8º ano do Ensino Fundamental, utilizados efetivamente por professores em sala de aula, no município de Cerro Largo, RS, por se tratar do município que abriga a Universidade Federal da Fronteira Sul. Identificamos que todas as escolas do município utilizam o mesmo LD (PNLD 2017). Então, para melhor qualificar a investigação, utilizamos mais dois LD, distribuídos no PNLD de 2014. Como resultados obtivemos as categorias: a) Histórico da doença; b) Síndrome da imunodeficiência adquirida; e c) despertar crítico-problematizador que o LD tem a oferecer diante das aplicabilidades da CT. Observamos um possível descaso por parte dos LDs em relação a problematização sobre como evitar o contágio da doença, por apresentar argumentos de que sempre existe um tratamento em tempos contemporâneos, em que a pessoa infectada leva a vida normalmente. Isso leva a certa despreocupação quanto à prevenção, já que o tratamento estaria garantido, sem maior contextualização/problematização dos riscos posteriores a infecção da doença, criando a falsa ideia de uma perspectiva salvacionista atribuída à CT, ou seja, que ela teria a capacidade de resolução do problema, criando sensações distorcidas de bem-estar social, minimizando a gravidade da doença em todos os seus aspectos. Além disso, também foram apresentados em  LDs “boletins epidemiológicos” caracterizando a maior parte dos infectados segundo cor, raça, orientação sexual, (negros, pardos, usuários de drogas, homossexuais, baixa condição de escolaridade), o que pode levar “ao preconceito e à discriminação” a determinados grupos de portadores do vírus, demostrando, assim, uma não neutralidade expressada nesses LDs, que ainda são, muitas vezes, apresentados de forma errônea como um produto livre de interesses ideológicos e valores, portador de verdades absolutas. O discurso nos LDs ainda não demonstra adequadamente o percurso da CT em relação ao tratamento e à possível cura da doença, levando a concepções equivocadas sobre o atual estágio das pesquisas na área.

Publicado
2019-07-24